domingo, 13 de fevereiro de 2011

Solidão

O não,
O nada-em-tudo,
O vazio...

A falta.

A espera,
Um indizível alvo,
Algo...

Solidão.


A vida vista da janela,
que não invade as frestas,
que não vinga.

O mundo se evade.

Das minhas fraquezas,
de tantas precariedades minhas,
o mundo se vinga.


A Solidão,

Brinda a si com uma fina taça de fel,
se apaixona, se enfeita,
Inebria-se.

Em si, por si, a si própria,
O não outro, o não ser,
o impróprio do próprio.

O sólido evanescente,
A desação.


À Solidão,

Sempre,
pretendo-me acostumado,
Sempre.

Mas a Solidão é sempre o nunca.


Falo, mudo, para ninguém.
Palavras, frases, sons,
em gestos largos,
repetidos, decorados, repetidos,

Diálogos surdos, intenções.
Atenção, a tensão.

O teto, as paredes,
O chão,
Nenhum-ninguém, um algo esboça,
alento algum, emboça.

Os desejos, os desejos, os desejos.


Solidões.


Atirem o primeiro sorriso,
Os que nunca estiveram sós.



Solidão 2

Uma frase em mente, mormente,
uma antiga canção:
“me dê a mão, vamos sair pra ver o sol.”

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Afeto

Uma carícia,
mãos plumas,
suavizando a superfície da pele

Os lábios,
um beijo cheiro e toque,

Os lábios,
mudos, dizem,
fica bem, estou aqui

Os braços,
protegem e aparam,
suportam, desdobram-se
os braços abraçam, abraçam

Os abraços

Ouvidos
ouvir, ouvir, ouvir, ouvir, ouvir, ouvir.
Nunca olvidem,
vez ou outra, quiçá, duvidem,
Nunca olvidem:

Entre sons e silêncios, no inspirar,
nas pausas...
com o devido alumbramento,
adivinha-se a fala das falas

Palavras à vontade,
a vontade nas palavras.

Os ombros,
a aparar as tuas mágoas, sempre,
repetem,
fica bem, estou aqui

A ponta mais paciente dos dedos,
enxuga, leve delicada,
uma a uma, cada uma das tuas lágrimas

A voz busca, inventa, compõe, puxa os fios
dos sons que te confortam

O tempo,
todos os instantes necessários,
às necessidades dos teus vazios

Uma flor dada, inesperada,
um poema dedicado, encomendado por ninguém,

Um gesto, um sorriso,
um copo d'água fresca
o corpo d'alma aberta

Os olhos a mirar, a admirar,
a tua beleza, a tua face, o teu olhar,

Os olhos, sábios, imitam,
os ombros e os lábios,
e repetem,

Fica bem, estou aqui.
Sempre estarei, afeito
A todos os teus afetos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Saramago

...não é por serem breves as ausências que a alegria será menor, afinal a ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança.
   
José Saramago - O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Escuridão

Pelo singelo motivo,
Da vida nos haver ensinado
- uma vez que somos -
duas pequenas certezas:
Um dia nada fomos,
Qualquer noite desta
Nada seremos,
Ficamos a exigir daquela,
A Vida,
Novas e confortáveis lições.

Mas a Vida cala.

Passamos, então,
A implorar por clareza
Em nós, em volta e,
principalmente,
Em quem amamos.
Porém, debaixo de todo este Sol,
conseguimos vislumbrar, apenas,
Esta luz imensa,
ofuscando nossas retinas.

E quando somos filhos,
perguntamos, perguntamos, perguntamos,
Para anos depois, pedirmos:

Me perdoa, meu filho,
teu pai sabe apenas as perguntas.

Me perdoem meus pais,
eu desconhecia a escuridão do mundo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Mínimo

O que me faz sentir
O que me faz saudar
O que me faz sonhar

A quem me apraz servir
A quem me apraz amar
A quem me apraz guardar

Onde for eu em mim
Quando é eu em ti

O mais, é escasso
O mais, é excesso

Pô-ema

Estúpido!
   -Arrogante!
      -Tacanho! Por que estúpido?
            -?
               -No começo do poema!
                  -Poema?
                     -Este...

-Um punhado de ofensas, poesia???,
não, não e não!
  
                  -A vida é poesia!
               -Algo, seria...
            -O mundo é arte!
         -Parte!
      -Tacanho!
   -Arrogante!
-Estúpido!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Grande Sertão: Veredas

Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.
   

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Vício

Quais são as cores do seu vício?
Quais são as dores do seu vício?

Em que instante momento,
teve início o seu vício?

Há fim em seu vício?

O vício, mata, seca, isola,
O vício alarga, expressa, aflora.

Por quantos orifícios entram os alívios dos seus vícios?

O vício inala, inspira, lambe,
O vício injeta, engole, sangue,

O vício muda, manda, empurra,
O vício emperra, esmurra, esperma,

O vício deglute.

O vício pensa, pensa, pensa,
De tanto refletir,
Vicia.
O vício deseja, quero-quero,
De tanto repetir,
Vicia.

De quem você esconde os seus vícios,
De quem os seus vícios lhe escondem?

Encurva, turva, engana,
Raspa, rasga, esgarça,
Alonga, dilata, amansa,
Mostra, revela, ensina,

O vício sabe.

Há viço, há graça, há brio,
Há massa,
Em seus vícios?

A vida amarga, atrasa,
Amassa,
Sem seus vícios?

A quem de seus vícios
você levaria para uma vida deserta?

- // -

Alguém totalmente puro, inteiramente casto,
Não terá se viciado, em dado momento,
Na pureza de seu recatamento?

Grande Sertão: Veredas

Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo.

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.

O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo demais.
  

domingo, 9 de janeiro de 2011

Redenção 2

O amor por um filho,
É um amor que dói,
Quando terríveis sentimentos
De perda,
Fuzilam nossa alma.

O amor de um filho,
É um amor que cura,
Quando um gesto, um cheiro, um som
Um sorriso,
Devolvem o sentido,
A tudo o que não havia.
   

Redenção

Este sorriso nos teus lábios...
Um sonho dentro de um sonho.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Ode ao Homem Tecnológico (Sexo, Sangue e Sofás)


Ode ao Homem Tecnológico
(Sexo, Sangue e Sofás)

- Como é glorioso o homem tecnológico!

Em poucos séculos, venceremos a morte
E todos viverão, felizes?, para sempre

E a poesia, e as artes, e as religiões,
Ainda servirão?

O temor pelo fim, terminará.
A angústia pela finalidade,
Esta não há de esmorecer.

Sim, as artes ainda servirão.
O fervor religioso, amém, por certo que não.

A Poesia?
Existirá, apenas. Não é de seu feitio servir.

- Como é glorioso e inventivo o homem tecnológico!

Da criatividade,
Para o cruel, o sádico,
O sarcástico, o esmagamento,
Nunca nos livraremos.

Inventaremos, sempre,
Novas formas de sofrimento.

O Circo Romano foi a criação mais genuinamente humana.
Comparável, apenas a bomba atômica.


- Como é glorioso...


Confortavelmente recostado em meu sofá,
Assisto às desgraças cotidianas.

Medianas, Grandiosas, Espetaculares,
Inesquecíveis.
Até que o tédio nos separe.

Não te aborreças, porém, se
Por algum acaso,
Perderes o teu noticiário favorito.

O sangue, de uma forma ou de outra,
Respingará em tua face.

Em alta definição, em 3D,
Em pixeis megalomaníacos,
Em câmaras lentas,


Em dolby estéreo, em 5.1 canais, em 51 canis,
em 51.000 bacanais.

Em uma catarseofoniquisteria.

- Como é glorioso e inventivo e incansável e imponente o homem tecnológico!

Amigos íntimos de algum desconhecido
Infeliz, em seu país distante,
Esqueceremos do bom-dia do dia-a-dia,
Ao nosso vizinho, o recusaremos.

E vamos nos perdendo,
Em frente às telas maravilhosas,
Hipertelas, Hipnóticas.

(Como é só o homem tecnológico...)

E o Sexo, disponível
Em quantidades intangíveis, intangível.
Sem odor, sem calor, sem suor, sem rubor.

O sexo cru, cruento, cruel
Preciso, profissional,
Industrial.

O sexo em 666.999 polegadas.

Imenso, descomunal,
Grandioso,
Monstruoso.

Indecentemente maior
Do que o meu simples e ridículo sexo de homem.

E todos viraremos bestas lascivas]

- Como é glorioso e inventivo e incansável e imponente e potente o homem tecnológico!

A impotência nos assombra...

Mas espere!


O gatinho que mora comigo,
Por minha filha escolhido,
Acaba de derrubar o mouse no chão,
Pedindo um pouco de carinho...

sábado, 25 de dezembro de 2010

Super-moleque

O Super-moleque voou,
passou no Rio, em Recife e depois Salvador
O Super-moleque chorou,
pelas crianças miseráveis sob o Redentor
Olhando se espantou,
vendo meninos tão novos, senhores do terror
Sorrindo, ouviu, vibrou
com o batuque alegre dos meninos do Pelô

O Super-moleque pousou,
disposto a entender aquela confusão
Nas ruas ele caminhou,
por entre trancas, alarmes, grades, portões
O Super-moleque encarou:
olhos fechados, trancados, selados de pavor
O Super-moleque sentiu,
sentiu a dor de ser do medo ele o causador

O Super-moleque entendeu,
passou o dia levemente a se divertir
E simples moleque dançou,
dançou o samba, a capoeira e o maracatu
O Super-moleque cantou,
cantou de um modo que ninguém sabe ensinar
Sozinho cantou e dançou,
até a hora em que o sol foi descansar

O Super-moleque dormiu,
com seus irmãos sobre o chão e sob o papelão
Devagar acordou,
olhou em volta com seus olhos de causar horror
O Super-moleque quebrou:
grades, ferros, trancas, derrubou portões
O Super-moleque roubou,
todas as armas e o temor de todos corações

O Super-moleque partiu,
subiu ao céu calado, sério, sem olhar pra trás
O Super-moleque sumiu,
tomou um rumo que ninguém sabe dizer
O Super-moleque deixou,
em todo canto um sentimento grande de paixão


O Super-moleque vai voltar

Quando do bem que ele deixou
ninguém mais se lembrar
    

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

As Curvas do Estradão (Letra)

Dizem que faz maravilhas
as muderna invenção
Que traz todo sentimento
a luz da televisão

Mas quem diz não descunfia
pela falta de saber
Ou pela pura maldade
sabe e não quer dizer

Que o que sente o coração
numa noite de luar
Frente ao quadro que é o sertão
não é coisa de contar

Só quem viu sabe medir
que tem muito mais poder
O clarão da lua
do que o brilho da TV

E quem passa lá de cima
num grande avião
Certamente vê o desenho,
das curvas do estradão

Mas se olhar é um sentido
bem feito na natureza
Não é só se assistindo
que se vê toda beleza

Bem sabe os menino
criado nas redondeza
Que o tom de telha é lindo
nos barranco com certeza

Mas já são bem previnido
que a cor do barro não é nada
Bom mesmo é o macio
de pisar terra molhada

Bem sabe os menino
criado nas redondeza
Que o que sente o coração
não é coisa de contar

Só quem viu sabe medir
que tem muito mais poder
O clarão da lua
do que o brilho da TV