segunda-feira, 20 de junho de 2011

Luto

Eu luto.
Mas o luto em tudo me mata.

Eu como, eu trago.
Mas como se traz à vida, o que da vida,
em vida já fez-se o estrago?

Eu revivo.
Ensaio um passo, um salto,
me animo.

Eu revivo.
O passado me assalta,
me mina.

Menino, me nino.

Eu vingo.
Mas o tempo me pesa. Eu vergo.

Revido.
Mas o tempo se vinga. Eu vergo.

Eu verso. Eu rimo.

No verso de cada palavra,
uma busca.

No arrimo das raras certezas,
vãos consolos.

Eu tento. Tomo tento, concentro,
me traio.

Distraio, o sonho me tenta. Menino,
me nino.

Me esforço. Me forço. Reforço. Retorço.

Esmoreço.

Eu luto.
Mas em luto,
desisto, me perco.

sábado, 18 de junho de 2011

Guardar - Antonio Cicero

"Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado."

http://www2.uol.com.br/antoniocicero/

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Rimação

Imitação
Irritação
               Sem ação
Frustração
Castração
               Nem reação

Não importa
                  a altitude, a longitude, a latitude
Só interessa
                  a atitude, a atitude, a atitude

Compressão
                  Contenção
Depressão
                  Detenção
Repressão
                  Retenção
Pressão
                  Tensão

Imaturo
  futuro
    duro
Maduro

Com      P      ConversãoP Conservam a   re
       Versão   Aversão  I   Atração              li
Sem      P      PerversãoP  Perseveram na      gi
       Versos   IntroversãoPIntervenção       P    ão

Soturno
Noturno
Coturno

Uma canção
Uma invenção

Diversão, por favor

domingo, 12 de junho de 2011

Judith Miller: "Cada um de nós tem seu grão de loucura"

No mundo de hoje, em que a indústria farmacêutica vende antidepressivos como bombons e proliferam métodos prometendo “cura” rápida dos problemas, Judith Miller — filha de Jacques Lacan, psicanalista francês de maior influência do século XX — parte numa espécie de cruzada contra a ideia de que se pode (ou deve) apagar o “grão” de loucura que existe em cada ser humano para adaptá-lo às exigências da sociedade de consumo e produção. (...)

Prosa Online - 04/06/11

terça-feira, 7 de junho de 2011

A poesia como liberdade e experiência do ser - Antonio Cicero

"Afinal, a rigor, o poema não serve para nada. Ou bem a leitura de um poema recompensa a si própria, isto é, vale por si, ou não vale absolutamente nada."


sábado, 4 de junho de 2011

Insuficiente

Repito-me:

Irascível
Inseguro
Impotente
Inadequado
Imperdoável
Imprevidente

Insuficiente

Rogo-me:
Cuida bem de mim.

Mas não sou o suficiente.

Amardurecer

Há muito eu cria

Tudo se perde

Nada me conforma

Catrascófano

Nos buracônegos ávidos
do firmemanto culpatólico

os desejos grossos de cada dia
são devorados

Estrelas carentes arranham
a superfície lunática

a libido nossa de todo dia
se esvai hoje

Astrolábios carnudos
bússolas desnorteadas
erróticos GPLS

Misterigozo permanece
o exapto CEPxo
dos esquivos Pontos Carneais

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ser o que é

As rosas não têm neuroses,

Os gatinhos brincam e arranham.

A pedra não tem dúvidas.

A faca corta, o relógio marca,
a bala mata.

João Cabral se foi. Há muito.
Há muito em João Cabral.

Coisas úteis, eternas ideias.

E quanto a nós,
homens ordinários, comuns,
em que nos fiaremos?

Matar, talvez.

Fugaz ilusão de vitória,
sobre a inútil morte.

Morrer, talvez.

Entender o que se foi,
quando nada mais se é.

Matar, ou morrer,
me trariam de volta à vida?

As vidas havidas, ávidas,
matar ou morrer me trariam?
Há vidas?

Jogos de palavras não vencem o nojo.

Uma bala cabeça a dentro,
explodindo neurônios,
elucidaria alguns mistérios.

Os gatos não pensam em balas,
nem sete, nem uma vez,
e são gatos.

Felinos. Ferinos. Gatos.

Então, é tudo questão de sorte,
nascer gato, rosa, pedra,
ideia de Melo Neto,

Ou morrer inútil homem,
filho e neto das ideias mortas?

A pedra não tem dúvidas.

A rosa parece bela.
A rosa perece bela.

A bala é.

Abalo, inútil, me abalo,
me esforço.

Pergunto, procuro, me torço, me esforço.

Faço as coisas úteis dos homens:
leio, escrevo, penso, escuto e falo.

E falho.

Tudo me aborrece.

domingo, 8 de maio de 2011

Foco

Há que se manter o foco.

Se o foco é bruma,
imagem falha,
a mira vira miragem.

Se o alvo é oco,
o foco é fosco,
é foco-fátuo.

Há que se afinar o foco.

Sintaxes alquebradas,
sinapses aleijadas,
caleidosfoco.

Reter, deter, derreter o hiper-foco.

A autoestrada das sensações,
o alto-falho das tentações,
as incertezas.

A certeza
perene
da perda
do melhor
do agora.

Há que se manter o foco em riste.

Fugir, sempre, do refulgir caótico
da infinita sala de espelhos
do parque das perversões.

Há que se manter o foco.
Há que se manter.
O foco.

domingo, 24 de abril de 2011

Mensina

Me ensina,
por qual porta, janela ou muro,
fresta, fenda, frincha ou furo,

Transpasso,
íntegro, inteiro, seguro,
as fronteiras do teu mundo.

Me guia,
por teus caminhos mais seguros,
pelas estradas corretas, retas,

Me afasta,
dos sobressaltos, precipícios,
do asfalto falto,

Contenha-me,
para que eu não, afoito, derrape,
nas sinuosas curvas dos teus medos.

Desenha em tua pele um mapa,
com as mais precisas coordenadas,
dos recônditos cantos dos desejos,

Confia a mim os teus pontos proibidos,
onde pulsam espremidos, encolhidos,
o arrepio, o gemido, o êxtase.

Me fala,
dos sons que te causam enlevo,
das palavras que te entristecem,

Me ajuda a compilar o dicionário da tua alma.

Me ensina,
a despertar teus sonhos,
a adormecer teu pranto,

A contemplar, sereno, a beleza dos teus silêncios.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sobre a ansiedade

"Não há infortúnio maior do que esperar o infortúnio.”
Pedro Calderón de la Barca

"Tão pouco do que pode acontecer de fato acontece.”
Salvador Dalí

Retirado da Carta da editora - Revista Mente Cérebro nº 219

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Adeus, Stalin!

Os vulcões arrojam pedras, as revoluções e as guerras, homens. Espalham-se famílias a grandes distâncias, deslocam-se os destinos, separam-se os grupos dispersos às migalhas; cai gente das nuvens...

Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo
Retirado do livro Adeus Stalin! de Irene Popow.

sábado, 26 de março de 2011

Para Sempre Nunca Mais

Nunca mais.
Tempo extremo, infame.

Para sempre.
Tempo infindo, insano.
Fim algum.

- // -

Em incerta hora,
inexato instante,
entre o nunca e o sempre,
de doentias entranhas,
escapuliram, sorrateiros,

O Para sempre,
O Nunca mais.

Inventaram-se as dores do mundo.
Pariu-se a morte da paz.

- // -

Com a espada, a lâmina,
do aço mais nobre e confiável,
de ponta crua, fria, friel,

Divida-se, rasgo-corte,
em golpe exato,
a garganta, o peito, o ventre,

E à biceps, à forceps,
em inverso parto (ré-vida),
Reentranhe-se,

Nas profundezas invisíveis,
da indizível criatura,
as suas desumanas criações.

- // -

E que nunca mais se aprenda,
E que para sempre se esqueça,

como foram criados, de que forma se cria,

o Nunca mais.
o Para sempre.

Para todo o sempre.
  

quarta-feira, 16 de março de 2011

Obras de Arte: Pérola Negra

1. Estácio, Eu e Você
2. Vale Quanto Pesa
3. Estácio, Holly Estácio
4. Pra Aquietar
5. Abundamentemente Morte
6. Pérola Negra
7. Magrelinha
8. Farrapo Humano
9. Objeto H
10. Forró De Janeiro