quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Rumo

Perdido o rumo
me aprumo
Perdido o prumo
arrumo
Perdido o sumo
me assumo perdidamente sem rumo

rumino, rumino, rumino
mastigo capim amargo
boi manso
boi magro
boi bobo

sonsoslaio, desejo
desejo tanto que esqueço
o início de tanto desejo

quis, consegui

outro querer
quis, persegui

outro mais querer
quis, não me quis

sem querer, desisto
com querer, insisto

aguardo as horas
os assuntos, os buracos, me embaralham

cartas na mesa
esperando o momento de desvelá-las
resvalando em minhas apostas
voam debandadas a um berro meu

repito o erro sabido

eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu
rumino

boi tonto
boi solto
perdido em tanto capim

bichão bichinho
rumino
sem rumo

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Léxico amoroso

Amar
a.mar
vt, direto, indireto ou oculto, verbo transigente (lat amare) 1 Acolher 2 Aceitar 3 Arriscar(-se) 4 Confundir(-se): Quem ama o feio, o monstruoso poderá estar amando. 5 Iludir(-se): Amor eterno. 6 Delirar: Ama a Deus sobre todas as coisas! 7 Fazer sexo; rezar: Amaram-se biblicamente. Antônimo: desistir.

Amor
a.mor
sm, sf, transgênero, platônico ou plutônico (ingl love) 1 Altruísmo; entrega; compreensão 2 Auto-centrismo: Transbordavam de amor-próprio. 3 Amizade: Amor ao próximo. 3 Um dos sete pecados capitais: Amar ao próximo do próximo. Antônimo: covardia.

Amante
a.man.te
adj m+f_f+f_m+m (franc amant) 1 Aquele(s) que ousa(m) viver. 2 Diz-se, hodiernamente, dos loucos, tolos, insensatos, insanos, insantos, ingênuos e assemelhados. Antônimo: Descolado.

Nó(s)

à realidade da ficção
fui incapaz de adequar
a ficção da nossa realidade

domingo, 11 de setembro de 2011

Caminhos

O Norte é ser forte
e a dor?
há que se ter a dor

Há que se ter ardor

O Sul, na rosa dos ventos
é embaixo,
ou para trás

retroceder, nunca
nunca?
a vida nos enleva

O Leste, o Oeste
direita, esquerda, volver

Vou ver o mundo
do Norte ao Sul
até que a morte me arrepare

descaminhos, desacertos
atalhos longos...

retalho minhas escolhas
rearrumo
re rumo

ao Norte?
e tenho lá esta força que o Mundo me cobra?...

Vem Rosa
me ergue pelos braços
me acalenta em seus ventos
me mostra o Mundo
os sentidos nos sentidos

calçaremos sapatilhas de plumas
e juntos
eu e você, Rosa, e os ventos
juntos bailarinos
encontraremos a paz dos caminhos fluidos

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Este dia

Este dia não me pertence
Esta noite me engole

Um sono que nunca durmo
Turvo, devaneio

Este dia não veio ao que disse
Esta noite me encolhe

Estes tempos não me pertencem

Definha, infindo
este dia que não me acolhe

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sincero

Palavra alguma, silêncios.

Um momento sequer.

Um movimento, um ar, um hálito...

Foste?

Foste um pirilampo...

Um relâmpago: isto me iluminaria!

Amarga

Sem sal ou doce

indócil

Amargo

Há fel nas abelhas das minhas palavras

Ingrato

Foste?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Reconhecimento para a Palestina

Um vídeo que oferece um novo caminho para a paz no Oriente Médio:
http://www.avaaz.org/po/middle_east_peace_now/96.php

AVAAZ.org: The World in Action

Tarja preta?

Instigante artigo publicado na revista Piauí deste mês. Selecionei alguns trechos. Leia a íntegra na revista.





A epidemia de doença mental

Por que cresce assombrosamente o número de pessoas com transtornos mentais e de pacientes tratados com antidepressivos e outros medicamentos psicoativos

por Marcia Angell

Parece que os americanos estão em meio a uma violenta epidemia de doenças mentais. A quantidade de pessoas incapacitadas por transtornos mentais, e com direito a receber a renda de seguridade suplementar ou o seguro por incapacidade, aumentou quase duas vezes e meia entre 1987 e 2007 – de 1 em cada 184 americanos passou para 1 em 76.

No que se refere às crianças, o número é ainda mais espantoso: um aumento de 35 vezes nas mesmas duas décadas.

(...) A substituição da “terapia de conversa” pela das drogas como tratamento majoritário coincide com o surgimento, nas últimas quatro décadas, da teoria de que as doenças mentais são causadas por desequilíbrios químicos no cérebro, que podem ser corrigidos pelo uso de medicamentos. Essa teoria passou a ser amplamente aceita pela mídia e pelo público, bem como pelos médicos, depois que o Prozac chegou ao mercado, em 1987, e foi intensamente divulgado como um corretivo para a deficiência de serotonina no cérebro.

(...) O que está acontecendo? A preponderância das doenças mentais sobre as físicas é de fato tão alta, e continua a crescer? Se os transtornos mentais são biologicamente determinados e não um produto de influências ambientais, é plausível supor que o seu crescimento seja real? Ou será que estamos aprendendo a diagnosticar transtornos mentais que sempre existiram? Ou, por outro lado, será que simplesmente ampliamos os critérios para definir as doenças mentais, de modo que quase todo mundo agora sofre de uma delas? E o que dizer dos medicamentos que viraram a base dos tratamentos? Eles funcionam? E, se funcionam, não deveríamos esperar que o número de doentes mentais estivesse em declínio e não em ascensão?

Essas são as questões que preocupam os autores de três livros provocativos, aqui analisados. Eles vêm de diferentes formações: Irving Kirsch é psicólogo da Universidade de Hull, no Reino Unido; Robert Whitaker é jornalista; e Daniel Carlat é um psiquiatra que clinica num subúrbio de Boston.

Os autores enfatizam diferentes aspectos da epidemia de doença mental. Kirsch está preocupado em saber se os antidepressivos funcionam. Whitaker pergunta se as drogas psicoativas não criam problemas piores do que aqueles que resolvem. Carlat examina como a sua profissão se aliou à indústria farmacêutica e é manipulada por ela. Mas, apesar de suas diferenças, os três estão de acordo sobre algumas questões importantes.

Em primeiro lugar, concordam que é preocupante a extensão com a qual as empresas que vendem drogas psicoativas – por meio de várias formas de marketing, tanto legal como ilegal, e usando o que muita gente chamaria de suborno – passaram a determinar o que constitui uma doença mental e como os distúrbios devem ser diagnosticados e tratados.

Em segundo lugar, nenhum dos três aceita a teoria de que a doença mental é provocada por um desequilíbrio químico no cérebro.

(...) Quando se descobriu que as drogas psicoativas afetam os níveis de neurotransmissores, surgiu a teoria de que a causa da doença mental é uma anormalidade na concentração cerebral desses elementos químicos, a qual é combatida pelo medicamento apropriado.

Por exemplo: como o Thorazine diminui os níveis de dopamina no cérebro, postulou-se que psicoses como a esquizofrenia são causadas ​​por excesso de dopamina. Ou então: tendo em vista que alguns antidepressivos aumentam os níveis do neurotransmissor chamado serotonina, defendeu-se que a depressão é causada pela escassez de serotonina. Antidepressivos como o Prozac ou o Celexa impedem a reabsorção de serotonina pelos neurônios que a liberam, e assim ela permanece mais nas sinapses e ativa outros neurônios. Desse modo, em vez de desenvolver um medicamento para tratar uma anormalidade, uma anormalidade foi postulada para se adequar a um medicamento.

Trata-se de uma grande pirueta lógica, como apontam os três autores. Era perfeitamente possível que as drogas que afetam os níveis dos neurotransmissores pudessem aliviar os sintomas, mesmo que os neurotransmissores não tivessem nada a ver com a doença. Como escreve Carlat: “Por essa mesma lógica, se poderia argumentar que a causa de todos os estados de dor é uma deficiência de opiáceos, uma vez que analgésicos narcóticos ativam os receptores de opiáceos do cérebro.” Ou, do mesmo modo, se poderia dizer que as febres são causadas pela escassez de aspirina.

Mas o principal problema com essa teoria é que, após décadas tentando prová-la, os pesquisadores ainda estão de mãos vazias. Os três autores documentam o fracasso dos cientistas para encontrar boas provas a seu favor. Antes do tratamento, a função dos neurotransmissores parece ser normal nas pessoas com doença mental. Por razões óbvias, as indústrias farmacêuticas fazem questão de que seus testes positivos sejam publicados em revistas médicas, e os médicos fiquem sabendo deles. Já os testes negativos ficam nas gavetas da FDA, que os considera propriedade privada e, portanto, confidenciais. Essa prática distorce a literatura médica, o ensino da medicina e as decisões de tratamento.

(...) O que todos esses medicamentos “eficazes” tinham em comum era que produziam efeitos colaterais, sobre os quais os pacientes participantes haviam sido informados de que poderiam ocorrer.

Diante da descoberta de que quase qualquer comprimido com efeitos colaterais era ligeiramente mais eficaz no tratamento da depressão do que um placebo, Kirsch especulou que a presença de efeitos colaterais em indivíduos que recebem medicamentos lhes permitia adivinhar que recebiam tratamento ativo – e isso foi corroborado por entrevistas com pacientes e médicos –, o que os tornava mais propensos a relatar uma melhora. Ele sugere que a razão pela qual os antidepressivos parecem funcionar melhor no alívio de depressão grave do que em casos menos graves é que os pacientes com sintomas graves provavelmente tomam doses mais elevadas e, portanto, sofrem mais efeitos colaterais.Os livros de Irving Kirsch, Robert Whitaker e Daniel Carlat são acusações enérgicas ao modo como a psiquiatria é praticada hoje em dia. Eles documentam o “frenesi” do diagnóstico, o uso excessivo de medicamentos com efeitos colaterais devastadores e os conflitos de interesse generalizados. Os críticos podem argumentar, como Nancy Andreasen o faz em seu artigo sobre a perda de tecido cerebral no tratamento antipsicótico de longo prazo, que os efeitos colaterais são o preço que se deve pagar para aliviar o sofrimento causado pela doença mental. Se soubéssemos que os benefícios das drogas psicoativas superam seus danos, isso seria um argumento forte, uma vez que não há dúvida de que muitas pessoas sofrem gravemente com doenças mentais. Mas como Kirsch, Whitaker e Carlat argumentam, essa expectativa pode estar errada. (...)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Nomes 2

O que sai de mim é meu, por enquanto.
Por encanto, minhas palavras já não são minhas.

Sou invisível sob o sol?
Ei, estou aqui, não está me vendo!?
Reescrevo: não está me lendo?

O indizível... é o que?

Indirigível, indigerível,
impróprio para consumo.
Pronto!, descubro: impróprio para consumo, estou.

Com o sumo da vida flerto. Apenas flerto.
Tanto me atrai.
Sem motivo?, afasto.
Desmotivado, me enfastio.

Tanto me distrai.

O cio do mundo me assusta.
O poder dos homens me assusta.
A beleza das meninas me assusta.

Insulto, xingo,
os assuntos me fogem.
Os nomes me esquecem.

Qual é a cor do seu perfume,
qual é o gosto da sua voz,
qual é o cheiro do seu toque?

Urjo: um pouco (muito estaria melhor)
do outro.
Ausentar-me, mergulhar-me em seus lados,
encharcar-me em seus líquidos,
Desejar-lhe minha falta.

A falta, a ignorância,
Os pedaços,
Com quantos fonemas rearrumo meus silêncios?

Um colo, um sorriso,
um olhar (“sim, eu te entendo”),
algo assim, banal,
banal, banal...
palavra fáceis
vida vilã...

carnal, carnal
sentidos alertas
conjecturas mortas

me dá um pedaço da sua alegria?
me dá um naco da sua voz farta?
me dá... qualquer coisa

uma coisa bem coisa
sem causa
uma coisa de efeito

me dá algo do seu outro mundo?

uma coisa bem coisa
sem nome
banal
desavergonhada

O que sai de mim é seu, por enquanto.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Nomes

Nomear,
ato ou efeito de pensar

Pensar,
distrato ou defeito de sentir

Sinto,
atuo enfeitado vivo

Viver,
ato ou efeito de nomear?

Sofismo

Só fico
sofismo

Só cismo
ensimesmo

um grande cisma me desoriente
um abalo, um sismo, um acidente

Buraco

Este oco
isto que parece vazio

Este buraco
é falta ou possibilidade?

Esta falta
esta festa que a vida promete

Estas possibilidades
fortalecem ou exigem esforço?

Este troço
me torce
Torço

Este moço
vivendo na pele de um velho

Este velho
morrendo no osso do moço

este lampião
metade querosene
ar metade

quer muito
ainda por muito
alumiar

Este oco
este naco

Este buraco

domingo, 17 de julho de 2011

Sons

o som de mãe
o som pai
o som filha
o som do espírito-canto

de um negro spiritual, o som

um som descobridor
uma nova sombra

o som de uma palavra nova
o som de uma palavra boa

o-s-s-s-s-o-o-o-o-m-d-e-u-m-a-p-a-l-a-v-r-a-n-o-v-a...

o som de um piano
o som de aplausos
um forte piano som

o som das folhas de um livro
nas pontas dos dedos
perseguindo um olhar leitor

o som da sua voz
o som da sua voz
o som da sua voz

o som da nua voz

Para Ciça e Antonia,
para 18/07/11.


Avesso

Não tenho medo por covardia.
A minha covardia me faz medo.

Não choro por tristeza.
As lágrimas regam o meu sofrer.

Meu brado,
meu berro,
meu grito,

afogam os pulmões com ar-
-rarefeito.

Desenfeito o mundo,
enegreço os dias,
com meus olhos cor-de-ficção.

Vejo vampiros.

O meu sangue irriga o mundo.
O mundo duvida do meu sangue.

Peço desculpas aos meus carrascos.
Rendo culto ao que me causa asco.

Ergo muros,
cavo fossos,
travo trancas,

Minha fraqueza fortalece os frutos
amargos
das minhas imaginações.

Não há meias-palavras
ou suaves saídas

A minha poesia se ergue em lodo.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Amarras

Tu me amarras
Você desarma

Tu me amaras
Você às claras

Em ti, murmúrios
Em você, nus urros

Em ti, sem rumo
Em você, me aprumo

terça-feira, 21 de junho de 2011

Um Dia de Sol

Um dia em que eu seja pai
Um dia em que eu seja filho
Um dia em que eu seja irmão
Um dia em que eu seja amigo
Um dia em que eu seja amante
Um dia em que eu seja amado

Em todos os sentidos.
Com todos os sentidos.

Um dia sem ódio
Um dia sem medo

Um dia que eu mereça
Um dia que eu não desmereça

Um dia não adiado
Um dia-já
Um diagora
Um dia hoje

Um dia de prosa
Um dia de verso
Um dia poesia
Um dia de livro

Um dia som
Um dia tom
Um dia dom
Um melodia

Um dia de cores
Um dia de flores
Um dia de amores
Um dia indolor

Um dia borboleta.

Um dia de noite de lua-cheia
coroando um ensolarado dia.

Puto

Pequenos desconfortos,
mínimos desacertos,
ínfimos dissabores...

O mundo me deixa puto.