domingo, 5 de setembro de 2010

Hai-kai-kaidinho-por-você

Ai, ai, ai, I'm waiting
Ai, ai, ai, I'm waiting

Tô desejando uma palavra tua
Tô esperando te encontrar na rua

Tô esperando uma palavra tua
Tô desejando te encontrar na rua

Mal-nu-scrito

Até quando agüentaríamos tal intimidade – suportava ainda a mim, que te adivinhava cada suspiro?

Suportava eu ainda a ti?, tornava-se mais, a cada dia, névoa da manhã fria, reflexo meu embaçado.

Confundiam-se nossas imagens.

Era a hora: a ausência, o afrouxar de mãos, o esquecimento - em algum breve instante no futuro - dos nossos gostos e dos nossos cheiros.

Me deste muito, em especial tua juventude; eu, para ti, arranquei de mim o que de melhor havia. Confesso, dei-me também em contraponto. A contragosto, meus piores matizes.

Perdoa-me, sou destas criaturas de sangue, que um dia morrem, e que por vezes fazem filhos. Pudera conter em mim, mesmo que em pequeníssima parte, divina porção. Limitado sou, porém, por destino trágico, às formas dos seres de carne. Sou filho dos filhos de outros filhos.

Das Mortes

A pior morte sofri intensamente.

Léo morreu aos vinte e três. Canceroso, aos poucos. Doeu-me doído quando soube, já quase no fim, de que ele não mais reconhecia as pessoas. Ali, o perdi. Alguns dias mais, morreu.

As últimas imagens em que o tenho é dele ainda gordo. Ainda sorriso. Mulherengo. Tenso. Amável. Amigo, barbudo e gordo.

Mudaram-se, a família com ele, para Belo Horizonte, em certo momento da doença. Lá, definhou. Cidade de belo nome e de terrível destino para meu querido amigo.

Guardo em meus olhos o Léo carioca, o Léo gordo. Ou em meu coração, o que dá no mesmo.


Senti muitos medos da morte. Certa vez, entretanto, pressenti algo muito mais poderoso, sombrio e paralisante: o medo da vida. Este, às vezes me visita. Há que ser muito vivo demais para combatê-lo, exterminá-lo, matá-lo. Antes.


Meu cachorro tinha o nome da paz: Shalom.

Shalom foi estraçalhado por outro cachorro.

Chorei muito, alguns meses depois, em uma noite de insônia.

Não sinto, não teria como, saudades da sua voz ou de suas palavras. Essas saudades sentimos das gentes (às vezes ouço Léo cantando). O que me faz falta (o que me fez falta naquela noite sem sono) é do Shalom no meu colo, eu afagando o peito dele, o calor, os pelos, a sua pequena língua beijando meu nariz.

Shalom vive na minha pele.


Minha avó se foi após duas semanas na UTI e oitenta e dois anos no mundo. Na ocasião desejei que ela vivesse em algum lugar miserável, longe, desassistido. Teria se livrado dos tubos, dos fios e dos danos da UTI.

Minha avó nunca foi a avó abrigo, abraço de tudo e de todos. Mas foi a que eu tive, a única, e ela me amava, e eu a amei, a mãe da minha mãe.


O pai da minha mãe se foi quando eu ainda não tinha nascido. Não o posso recordar. Era médico, tomou remédios.


O pai do meu pai também era médico, sua esposa, “do lar”. Os dois há muito deixaram de ser. A mim, mal foram. Afastados, em outro país, de onde um dia meu pai fugiu. Os tive apenas através de vozes em telefones, alguns retratos, cartas.

Telefonemas, retratos e cartas. Sem cheiros ou calores.

Creio ter conhecido mais ao Shalom do que estes dois amados avós meus.


Espécie de pré-morte a que meu pai experimentou, em sua juventude. Aos dezenove saiu de sua casa, de seu país, de seu pai, de sua mãe, de sua irmã. Aos pais nunca mais os teve em seus olhos; restou avistá-los com o coração.

O filho afastado de seus pais, para sempre. E sempre é muito.

Pensava diferente do era permitido ser pensado naquela ilha que era o país dele.


Um acontecimento aliviou tantas dores: a irmã de meu pai veio ao nosso encontro, turista de poucos dias, tia que eu sempre quis, meu pai exultante, minha tia risonha, no oculista, eu feliz, mesmo o oculista compartilhava tamanho contentamento...
(no meio de uma noite, adolescente, acordei, chorando, com pena de meu pai. Queria consolá-lo. Fui ao seu quarto. Eu estava triste, ele dormindo. Acordei-o, expliquei a minha revolta, o filho que tomava as dores do pai. Ele me olhou, constrangido, confuso, quase irritado. Acho. O passado é pouca lembrança e muito esquecimento. O que me recordo, de modo difuso, é de minha mãe me acarinhando e me conduzindo de volta à minha cama)
... fomos eu e meu pai ao oculista, levar minha tia para fazer um par de óculos novos, muitos anos depois daquela noite entre parênteses.


Deve-se sempre enxergar muito bem, mesmo que seja apenas por duas semanas.

Minha tia passou a ver melhor lá em seu país, e eu a bebi com os olhos naquelas duas semanas em que aqui esteve.

Na minha família sou o único que nunca usou óculos. Ainda assim, era medroso o meu olhar.

Olhar bem olhado, beber e comer com os olhos. Olhar em outros olhos. Viver com outros olhos.

Após o coração da minha avó parar e seus olhos não mais se abrirem, encontramos, dias depois, em sua casa, embrulhados, um par de óculos novos. Ela os havia encomendado. Não chegou a usá-los.

Nas UTIs não se usam bem os olhares.



Rio de Janeiro, 08/01/98, 01:30 a:m
Rio de Janeiro, 05/09/10, 02:25 a:m
Rio de Janeiro, 31/03/11, 23:23 p:m

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Para Laura Geszti


Nem isto, nem aquilo

Do nada ao tudo,
O Universo

Do cheio ao vazio
Capazidades

Do macho à fêmea
Humano

Você a mim,
Um pano

A-morto


Casulo, casca, crosta, couraça
Corda, arame, camisa-forçada
Tijolo, cimento, parede, porta,
Aperto, apartado, apartalamento

Morto, forno, roto, chocho
Boquirroto, amarfanhado
Coto
Amorfo, espedaçado
Toco

Parto, regaço, abraço, beijo
Lã, algodão, seda, pelo
Hálito
Cálido
Morno
Vida

Anelo, enredo, a-medo
A mais
Assaz, assaz, assaz
Vento, solto, tento, molto
A-morto
Gozo


Grande Sertão: Veredas


Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira: e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...

O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas sempre vão mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro!

Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! - só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?

Assim é que digo: eu, que o senhor já viu que tenho retentiva que não falta, recordo tudo da minha meninice. Boa, foi. Me lembro dela com agrado; mas sem saudade. Porque logo sufusa uma aragem dos acasos. Para trás, não há paz.

Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom.

(...) a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Obras de Arte: Time Out

1. Blue Rondo à la Turk
2. Strange Meadow Lark
3. Take Five
4. Three To Get Ready
5. Kathy's Waltz
6. Everybody's Jumpin'
7. Pick Up Sticks

quarta-feira, 24 de março de 2010

Obras de Arte: The Incredible Jazz Guitar of Wes Montgomery

1. Airegin
2. D-Natural Blues
3. Polka Dots and Moonbeams
4. Four on Six
5. West Coast Blues
6. In Your Own Sweet Way
7. Mr. Walker
8. Gone With the Wind

Obras de Arte: Ashes Are Burning

1. Can You Understand?
2. Let It Grow
3. On The Frontier
4. Carpet Of The Sun
5. At The Harbour
6. Ashes Are Burning

Obras de Arte: Elis & Tom

1. Águas de março
2. Pois é
3. Só tinha de ser com você
4. Modinha
5. Triste
6. Corcovado
7. O que tinha de ser
8. Retrato em branco e preto
9. Brigas nunca mais
10. Por toda a minha vida
11. Fotografia
12. Soneto de separação
13. Chovendo na roseira
14. Inútil paisagem

domingo, 21 de março de 2010

Obras de Arte: Libertango

1. Libertango
2. Meditango
3. Undertango
4. Adios nonino
5. Violentango
6. Novitango
7. Amelitango
8. Tristango

Obras de Arte: Marquis de Sade

1. Old Laces
2. Wig
3. Blues for Johann Sebastian
4. Renaissance
5. Beneath a Weeping Willow Shade
6. Versailles Promenade
7. Troubadour
8. Marquis de Sade
9. Aria
10. Bossa Antique

Caetano Veloso


Existirmos: a que será que se destina?

A dor define nossa vida toda.

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada.

De perto, ninguém é normal.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...

É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
...
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão.
...
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria.

Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
...
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um

quinta-feira, 18 de março de 2010

Hamlet - William Shakespeare

ATO III – CENA I (Solilóquio de Hamlet)
To be, or not to be: that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, 'tis a consummation
Devoutly to be wish'd. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there's the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there's the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor's wrong, the proud man's contumely,
The pangs of despised love, the law's delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover'd country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.
Tradução de Millôr Fernandes:
Ser ou não ser - eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma Pedradas e flechadas do destino feroz Ou pegar em armas contra o mar de angústias – E combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir; Só isso. E com o sono – dizem – extinguir Dores do coração e as mil mazelas naturais A que a carne é sujeita; eis uma consumação Ardentemente desejável. Morrer – dormir – Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte Quando tivermos escapado ao tumulto vital Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão Que dá à desventura uma vida tão longa. Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, A prepotência do mando, e o achincalhe Que o mérito paciente recebe dos inúteis, Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos, Gemendo e suando numa vida servil, Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte – O país não descoberto, de cujos confins Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade, Nos faz preferir e suportar os males que já temos, A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
e empreitadas de vigor e coragem,
refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

Saramago

E como as esperanças têm esse fado que cumprir, nascer umas das outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo...
José Saramago - As Intermitências da Morte

Encarregado


Encarregado carrego o peso inteiro do mundo
Pressionado escorrego nos ermos do fundo
Aprofundado me assusto em menos de um segundo
Atolado me enterro, me engasgo em mim, eu imundo

Fazendo manha me perco, amanhã eu me acho
No outro dia não acho e faço bico, me agacho
Mamãe me dá o teu colo, me colo no seu regaço
Papai me dá o teu braço, me abraço em qualquer pedaço

Desconsolado me entrego a quem primeiro me ache
Achando a solução, soluço e peço baixinho
Me salva da confusão, me ama, entenda e me encaixe
Me encaixo todo em você, me fundo no seu caminho

E na fusão me confundo, eu já não sou mais ninguém
Você me olha do alto, então eu viro neném
E seu desejo fraqueja e fraco viro refém
Você não mais me deseja, queria um homem e não tem

Espero a sua volta, não volta e some na vida
Endividado me culpo, aperto a minha ferida
Desesperado me apego e já não sei mais a quê
Me pego triste, chorando, e eu nem sei o porquê

E aferindo um gesto, qualquer palavra, perdidos
Procuro explicações, invento estórias, eu crio
Criando vou me perdendo, meus traços são esquecidos
Perdido enfim eu percebo, vivi você, eu vazio

Esvaziado deliro, faço você ideal
Idealizando te caço, procuro a cada esquina
E assim dobrando, eu tonto, percebo em cada menina
Qualquer mulher um pecado, algum defeito fatal

Desfeito então o novelo, me encarrego agora por mim
Revejo em outros espelhos, com outros olhos, com zelo
Preencho, arrumo o espaço, construo um novo modelo
Modelo bem com cuidado um novo homem enfim
    

Retroalimentação 2

Retroalimentação

Da auto-deglutição, escapulir
Almejada meta
Infinda

Desmanchar, esmagar, destruir
O que resta
Do ainda
Da autocomiseração

Em meu aterro solitário, onde não se avista
Deito o podre, o que não presta
O sujo e o feio

E minh’alma, mesquinha, egoísta
Exímia no tapear, mestra
Constrói o meu anseio

Despeja uma camada de prata
Outra de ouro, disfarça
Retrai

Com luxo tudo arrebata
Aos ratos e urubus atrai
O falso e a farsa

Mas ainda não satisfeita
Molha com perfume
Encharca, enxágua, esfrega

E então

Da borda frágil escorrega
O fétido, o curtume
A desgraça espreita

Desvão

O leito instável
Abarrotado, nato
Dança em dança tresloucada

A viga mal-acabada
A intriga, o mato
Esgarçam o indecifrável

Encharcados, regurgitam
Revolvidos, recomeçam

A retroalimentação