quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Nomes

Nomear,
ato ou efeito de pensar

Pensar,
distrato ou defeito de sentir

Sinto,
atuo enfeitado vivo

Viver,
ato ou efeito de nomear?

Sofismo

Só fico
sofismo

Só cismo
ensimesmo

um grande cisma me desoriente
um abalo, um sismo, um acidente

Buraco

Este oco
isto que parece vazio

Este buraco
é falta ou possibilidade?

Esta falta
esta festa que a vida promete

Estas possibilidades
fortalecem ou exigem esforço?

Este troço
me torce
Torço

Este moço
vivendo na pele de um velho

Este velho
morrendo no osso do moço

este lampião
metade querosene
ar metade

quer muito
ainda por muito
alumiar

Este oco
este naco

Este buraco

domingo, 17 de julho de 2011

Sons

o som de mãe
o som pai
o som filha
o som do espírito-canto

de um negro spiritual, o som

um som descobridor
uma nova sombra

o som de uma palavra nova
o som de uma palavra boa

o-s-s-s-s-o-o-o-o-m-d-e-u-m-a-p-a-l-a-v-r-a-n-o-v-a...

o som de um piano
o som de aplausos
um forte piano som

o som das folhas de um livro
nas pontas dos dedos
perseguindo um olhar leitor

o som da sua voz
o som da sua voz
o som da sua voz

o som da nua voz

Para Ciça e Antonia,
para 18/07/11.


Avesso

Não tenho medo por covardia.
A minha covardia me faz medo.

Não choro por tristeza.
As lágrimas regam o meu sofrer.

Meu brado,
meu berro,
meu grito,

afogam os pulmões com ar-
-rarefeito.

Desenfeito o mundo,
enegreço os dias,
com meus olhos cor-de-ficção.

Vejo vampiros.

O meu sangue irriga o mundo.
O mundo duvida do meu sangue.

Peço desculpas aos meus carrascos.
Rendo culto ao que me causa asco.

Ergo muros,
cavo fossos,
travo trancas,

Minha fraqueza fortalece os frutos
amargos
das minhas imaginações.

Não há meias-palavras
ou suaves saídas

A minha poesia se ergue em lodo.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Amarras

Tu me amarras
Você desarma

Tu me amaras
Você às claras

Em ti, murmúrios
Em você, nus urros

Em ti, sem rumo
Em você, me aprumo

terça-feira, 21 de junho de 2011

Um Dia de Sol

Um dia em que eu seja pai
Um dia em que eu seja filho
Um dia em que eu seja irmão
Um dia em que eu seja amigo
Um dia em que eu seja amante
Um dia em que eu seja amado

Em todos os sentidos.
Com todos os sentidos.

Um dia sem ódio
Um dia sem medo

Um dia que eu mereça
Um dia que eu não desmereça

Um dia não adiado
Um dia-já
Um diagora
Um dia hoje

Um dia de prosa
Um dia de verso
Um dia poesia
Um dia de livro

Um dia som
Um dia tom
Um dia dom
Um melodia

Um dia de cores
Um dia de flores
Um dia de amores
Um dia indolor

Um dia borboleta.

Um dia de noite de lua-cheia
coroando um ensolarado dia.

Puto

Pequenos desconfortos,
mínimos desacertos,
ínfimos dissabores...

O mundo me deixa puto.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Luto

Eu luto.
Mas o luto em tudo me mata.

Eu como, eu trago.
Mas como se traz à vida, o que da vida,
em vida já fez-se o estrago?

Eu revivo.
Ensaio um passo, um salto,
me animo.

Eu revivo.
O passado me assalta,
me mina.

Menino, me nino.

Eu vingo.
Mas o tempo me pesa. Eu vergo.

Revido.
Mas o tempo se vinga. Eu vergo.

Eu verso. Eu rimo.

No verso de cada palavra,
uma busca.

No arrimo das raras certezas,
vãos consolos.

Eu tento. Tomo tento, concentro,
me traio.

Distraio, o sonho me tenta. Menino,
me nino.

Me esforço. Me forço. Reforço. Retorço.

Esmoreço.

Eu luto.
Mas em luto,
desisto, me perco.

sábado, 18 de junho de 2011

Guardar - Antonio Cicero

"Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado."

http://www2.uol.com.br/antoniocicero/

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Rimação

Imitação
Irritação
               Sem ação
Frustração
Castração
               Nem reação

Não importa
                  a altitude, a longitude, a latitude
Só interessa
                  a atitude, a atitude, a atitude

Compressão
                  Contenção
Depressão
                  Detenção
Repressão
                  Retenção
Pressão
                  Tensão

Imaturo
  futuro
    duro
Maduro

Com      P      ConversãoP Conservam a   re
       Versão   Aversão  I   Atração              li
Sem      P      PerversãoP  Perseveram na      gi
       Versos   IntroversãoPIntervenção       P    ão

Soturno
Noturno
Coturno

Uma canção
Uma invenção

Diversão, por favor

domingo, 12 de junho de 2011

Judith Miller: "Cada um de nós tem seu grão de loucura"

No mundo de hoje, em que a indústria farmacêutica vende antidepressivos como bombons e proliferam métodos prometendo “cura” rápida dos problemas, Judith Miller — filha de Jacques Lacan, psicanalista francês de maior influência do século XX — parte numa espécie de cruzada contra a ideia de que se pode (ou deve) apagar o “grão” de loucura que existe em cada ser humano para adaptá-lo às exigências da sociedade de consumo e produção. (...)

Prosa Online - 04/06/11

terça-feira, 7 de junho de 2011

A poesia como liberdade e experiência do ser - Antonio Cicero

"Afinal, a rigor, o poema não serve para nada. Ou bem a leitura de um poema recompensa a si própria, isto é, vale por si, ou não vale absolutamente nada."


sábado, 4 de junho de 2011

Insuficiente

Repito-me:

Irascível
Inseguro
Impotente
Inadequado
Imperdoável
Imprevidente

Insuficiente

Rogo-me:
Cuida bem de mim.

Mas não sou o suficiente.

Amardurecer

Há muito eu cria

Tudo se perde

Nada me conforma

Catrascófano

Nos buracônegos ávidos
do firmemanto culpatólico

os desejos grossos de cada dia
são devorados

Estrelas carentes arranham
a superfície lunática

a libido nossa de todo dia
se esvai hoje

Astrolábios carnudos
bússolas desnorteadas
erróticos GPLS

Misterigozo permanece
o exapto CEPxo
dos esquivos Pontos Carneais

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ser o que é

As rosas não têm neuroses,

Os gatinhos brincam e arranham.

A pedra não tem dúvidas.

A faca corta, o relógio marca,
a bala mata.

João Cabral se foi. Há muito.
Há muito em João Cabral.

Coisas úteis, eternas ideias.

E quanto a nós,
homens ordinários, comuns,
em que nos fiaremos?

Matar, talvez.

Fugaz ilusão de vitória,
sobre a inútil morte.

Morrer, talvez.

Entender o que se foi,
quando nada mais se é.

Matar, ou morrer,
me trariam de volta à vida?

As vidas havidas, ávidas,
matar ou morrer me trariam?
Há vidas?

Jogos de palavras não vencem o nojo.

Uma bala cabeça a dentro,
explodindo neurônios,
elucidaria alguns mistérios.

Os gatos não pensam em balas,
nem sete, nem uma vez,
e são gatos.

Felinos. Ferinos. Gatos.

Então, é tudo questão de sorte,
nascer gato, rosa, pedra,
ideia de Melo Neto,

Ou morrer inútil homem,
filho e neto das ideias mortas?

A pedra não tem dúvidas.

A rosa parece bela.
A rosa perece bela.

A bala é.

Abalo, inútil, me abalo,
me esforço.

Pergunto, procuro, me torço, me esforço.

Faço as coisas úteis dos homens:
leio, escrevo, penso, escuto e falo.

E falho.

Tudo me aborrece.